segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Filosofia na Obra de Machado de Assis

Por Miguel Reale

Quem se dispõe a apreciar os aspectos filosóficos da obra de Machado de Assis vê-se logo perante uma alternativa: Filosofia de Machado de Assis, ou na obra de Machado da Assis? Não há nada de surpreendente que se comece por uma aporia, pois as perplexidades, os contrastes e as contradições enxameiam os romances, os contos, as crônicas, as poesias e as páginas de crítica do patrono da Academia Brasileira de Letras, comprazendo-se ele em jogar com termos opostos ou distintos, sem que seu espírito opte por um deles, preferindo antes mantê-los correlatos numa viva concretude.
Pelo que me foi dado observar, relendo as obras de Machado de Assis, ele emprega a palavra “filosofia’’ pelo menos com três acepções distintas, às vezes complementares. Em primeiro lugar, usa o termo em tom jocoso, como, por exemplo, ao referir-se ao ‘grunhir dos porcos, espécie de troça concentrada e filosófica”,ou,a “um asno de Sancho deveras filósofo”,ou quando nos mostra Quincas Borba a trincar uma asa de frango “com filosófica serenidade”.
Não se pense que Machado de Assis tenha desapreço pela Filosofia, pois bem poucos de nossos escritores revelam tão constante preocupação filosófica, que, no prefácio do romance cujo primeiro centenário estamos comemorando, é deliciosamente apresentada como “rabugens de pessimismo”.
Poder-se-ia afirmar que é com essa obra que se afirma, em toda a sua plenitude, a que poderíamos qualificar, sob certo prisma, de “fase filosófica” da criação machadiana, quando o enredo ou a trama dos romances adquirem transparência através dos valores introspectivos do autor,cuja presença risonha e crítica ora ilumina os episódios,ora lhes oculta o sentido,quando não os abre num desconcertante leque de perspectivas.

Texto na íntegra
http://www.academia.org.br/abl/media/prosa44a.pdf

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