Por Miguel Reale
Quem se dispõe a apreciar os aspectos filosóficos da obra de Machado de Assis vê-se logo perante uma alternativa: Filosofia de Machado de Assis, ou na obra de Machado da Assis? Não há nada de surpreendente que se comece por uma aporia, pois as perplexidades, os contrastes e as contradições enxameiam os romances, os contos, as crônicas, as poesias e as páginas de crítica do patrono da Academia Brasileira de Letras, comprazendo-se ele em jogar com termos opostos ou distintos, sem que seu espírito opte por um deles, preferindo antes mantê-los correlatos numa viva concretude.
Pelo que me foi dado observar, relendo as obras de Machado de Assis, ele emprega a palavra “filosofia’’ pelo menos com três acepções distintas, às vezes complementares. Em primeiro lugar, usa o termo em tom jocoso, como, por exemplo, ao referir-se ao ‘grunhir dos porcos, espécie de troça concentrada e filosófica”,ou,a “um asno de Sancho deveras filósofo”,ou quando nos mostra Quincas Borba a trincar uma asa de frango “com filosófica serenidade”.
Não se pense que Machado de Assis tenha desapreço pela Filosofia, pois bem poucos de nossos escritores revelam tão constante preocupação filosófica, que, no prefácio do romance cujo primeiro centenário estamos comemorando, é deliciosamente apresentada como “rabugens de pessimismo”.
Poder-se-ia afirmar que é com essa obra que se afirma, em toda a sua plenitude, a que poderíamos qualificar, sob certo prisma, de “fase filosófica” da criação machadiana, quando o enredo ou a trama dos romances adquirem transparência através dos valores introspectivos do autor,cuja presença risonha e crítica ora ilumina os episódios,ora lhes oculta o sentido,quando não os abre num desconcertante leque de perspectivas.
Texto na íntegra
http://www.academia.org.br/abl/media/prosa44a.pdf
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
sábado, 15 de novembro de 2008
Jorge Amado - Legível aos brasileiros e atraente aos estrangeiros
"A obra de Jorge Amado é talvez a maior empreitada literária para tornar o Brasil legível aos seus contemporâneos e atraente aos estrangeiros. A fim de criar um universo de histórias e personagens que interessassem aos brasileiros, escreveu mais de 40 livros, adotando, na maioria deles, a forma clássica do romance. Não se interessou pelas experiências vanguardistas. Queria ser lido por todos.
Sua literatura, de ambição balzaquiana e folhetinesca, buscou descrever tanto a violência que define as nossas relações sociais, quanto a esperança, a ternura e a malícia que ele imaginava constituintes do caráter do ‘povo brasileiro’. A Bahia é seu porto, mas os seus livros são todos eles a universalização de lutas empreendidas pelos personagens por justiça ou pelo direito de viver.
É essa confluência entre sentido social e humanista da obra, reivindicação política, riqueza romanesca e forte coloração local que fez a fama internacional de Jorge Amado. A alguns estrangeiros, porém, o que fascina no escritor não é o elemento tropical, mas o engajamento, expresso principalmente em suas obras iniciais, seja na revolução comunista, seja na expressão romanesca dos ‘gestos e gritos’ da vida, como assinalou Albert Camus.
Para descobrir esse Jorge Amado dos primórdios é preciso hoje algum esforço. A sua glória obscureceu a sua literatura. As facilitações que pôde fazer nas obras finais eclipsaram o drama de seus principais livros. Aos poucos, Jorge Amado foi folclorizado e se folclorizou, enquanto vinha por terra o comunismo e a sua influência na política local. Seus personagens se transformaram em imagens de uma brasilidade arquetípica. Ele próprio se tornou ponto turístico da Bahia, que por sua vez passou a se confundir com seus livros. Jorge Amado realizou a proeza que almeja todo escritor. Viu sua obra penetrar no imaginário de seu tempo e construir um mundo que não é mais particular, mas de milhares, de uma época inteira. Isso faz um clássico. Um dia talvez a sua outra ambição possa se manifestar: a de que essa obra seja lida como apelo à libertação e à liberdade, que, na sua literatura, constituem a glória e a razão de viver.
Sua literatura, de ambição balzaquiana e folhetinesca, buscou descrever tanto a violência que define as nossas relações sociais, quanto a esperança, a ternura e a malícia que ele imaginava constituintes do caráter do ‘povo brasileiro’. A Bahia é seu porto, mas os seus livros são todos eles a universalização de lutas empreendidas pelos personagens por justiça ou pelo direito de viver.
É essa confluência entre sentido social e humanista da obra, reivindicação política, riqueza romanesca e forte coloração local que fez a fama internacional de Jorge Amado. A alguns estrangeiros, porém, o que fascina no escritor não é o elemento tropical, mas o engajamento, expresso principalmente em suas obras iniciais, seja na revolução comunista, seja na expressão romanesca dos ‘gestos e gritos’ da vida, como assinalou Albert Camus.
Para descobrir esse Jorge Amado dos primórdios é preciso hoje algum esforço. A sua glória obscureceu a sua literatura. As facilitações que pôde fazer nas obras finais eclipsaram o drama de seus principais livros. Aos poucos, Jorge Amado foi folclorizado e se folclorizou, enquanto vinha por terra o comunismo e a sua influência na política local. Seus personagens se transformaram em imagens de uma brasilidade arquetípica. Ele próprio se tornou ponto turístico da Bahia, que por sua vez passou a se confundir com seus livros. Jorge Amado realizou a proeza que almeja todo escritor. Viu sua obra penetrar no imaginário de seu tempo e construir um mundo que não é mais particular, mas de milhares, de uma época inteira. Isso faz um clássico. Um dia talvez a sua outra ambição possa se manifestar: a de que essa obra seja lida como apelo à libertação e à liberdade, que, na sua literatura, constituem a glória e a razão de viver.
"Jorge Amado", copyright Folha de S. Paulo, editorial, 8/8/01
Saiba mais:
A sociedade nas crônicas de Luís Fernando Veríssimo
Por:
Cristina Markowski / Claudia Carvalho / Rodrigo Santos de Oliveira
Cristina Markowski / Claudia Carvalho / Rodrigo Santos de Oliveira
Caráter sociológico presente em suas obras
As crônicas ficcionais de Veríssimo a que nos reportaremos, intituladas: “A volta da Andradina”, “A mulher do Silva”, “Posto 5” e “A descoberta”, serão utilizadas para comprovação da natureza social dos textos desse escritor.
A primeira delas, “A volta da Andradina”, trata do constrangimento de uma família ao receber de volta um ente recém-separado, Andradina, ainda muito abatida, devido ao recente desenlace conjugal. A simples menção ao nome de seu ex-marido vira tabu, e todos na casa se vêem numa posição muito desconfortável, evitando ao máximo qualquer referência ao casamento desfeito.
Na segunda, “A mulher do Silva”, a questão fundamental está relacionada à preocupação das pessoas com a opinião alheia, com as convenções sociais. O personagem Silva, ao exigir de um vizinho que pintasse a fachada de sua casa, na qual foram escritas palavras que colocavam em dúvida a conduta moral de sua esposa, acaba por arcar com todas as despesas relativas à pintura. Acontece que, depois disso, outras casas da mesma rua apareceram com insinuações semelhantes sobre a mulher do Silva em suas fachadas. Silva não teve dúvidas: mandou pintá-las também.
Na penúltima crônica, “Posto 5”, o tema abordado é o relacionamento de uma mulher madura com um rapaz vinte anos mais jovem e a decepção que ela sofre quando, dois meses após tê-la abandonado, ela o reencontra na praia e ele, ao invés de implorar pelo seu perdão e pedir para que ela o aceitasse de volta - como era da vontade dela - a apresenta ao seu novo amor, uma garota de dezoito anos.
Por fim, em “A descoberta”, o enfoque fica por conta das expectativas paradoxais que um pai deposita no filho. O pai aparece de surpresa no apartamento do filho, após anos lhe mandando dinheiro, a pretexto, segundo o filho, nas cartas que escrevia para pedir dinheiro, de custear noitadas regadas a bebidas e mulheres. Esse pai chega ao apartamento de seu filho cheio de orgulho e louco para ver com seus próprios olhos o espécime viril e fanfarrão que ele ajudara a gerar. Qual não foi a decepção dele quando ouve de seu filho que não havia, nem nunca houve, mulheres, tampouco orgias sexuais regadas a uísque importado, e que o dinheiro que ele lhe enviara durante todos aqueles anos custeara os seus estudos da faculdade e materiais de pesquisa.
Após essas colocações, podemos concluir que, por trás das crônicas de Luís Fernando Veríssimo há toda uma estrutura social minimamente demarcada. Seus personagens são seres comuns, figuras criadas a partir de estereótipos estabelecidos pela sociedade em que vivemos. As situações expostas em suas criações são as mais corriqueiras possíveis, vivenciadas por todo e qualquer mortal em seu dia-a-dia, afinal de contas, quem de nós não viveu ou conhece alguém que tenha vivido, alguma vez na vida, alguma das quatro situações elencadas acima? Veríssimo cria seres eminentemente sociais e escreve suas crônicas para outros seres capazes de compreender o que há por trás de cada metáfora por uma razão muito simples: a de que nós, seres sociais, exercemos uma capacidade muito grande de identificação com os temas e personagens com que ele tão generosamente nos presenteia.
A maneira como Luís Fernando Veríssimo escreve revela sua competência em abstrair toda a essência da sociedade em que ele, escritor, está inserido, e transferi-la para o leitor. Seu poder de representação da realidade de maneira ficcional traduz todo o valor estético de suas obras.
Portanto, não resta dúvidas de que podemos enxergar a sociedade refletida nas obras de Luís Fernando Veríssimo, com todos os seus vícios e suas virtudes, expondo suas mazelas com muito bom humor e ironia.
Texto na íntegra:
Admiração - Vinícius de Moraes e Carlos Drumond de Andrade

Por: EDUARDO SIMÕES
A admiração mútua entre Vinicius de Moraes (1913-1980) e Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), manifestada em crônicas e entrevistas de ambos, está para ganhar nova expressão pública na forma de um poema inédito em livro. Escrito no fim dos anos 40, "Retrato de Carlos Drummond de Andrade" (reproduzido nesta página) foi descoberto pelo poeta e professor Eucanaã Ferraz e será publicado em novembro no livro "Poesia Esparsa", título provisório de um dos 15 lançamentos ligados ao poeta carioca, que a editora Companhia das Letras coloca no mercado até 2011 (leia abaixo).Na primeira estrofe, Vinicius diz:
"Duas da manhã: abro uma gaveta
Com um gesto sem finalidade
E dou com o retrato do poeta
Carlos Drummond de Andrade".
Segundo Ferraz, trata-se de "um típico poema que nasce de um ato banal, algo que Manuel Bandeira chamava de poema desentranhado". Ferraz ressalta ainda que entre Vinicius e Drummond não chegava a haver uma ligação de irmãos, como havia entre o poeta e compositor carioca e Manuel Bandeira (1886-1968). "Mas eram amigos e freqüentavam a casa de amigos em comum, como Rubem Braga", diz.
Texto na íntegra:
Um pouquinho da vida particular de Guimarães Rosa

Galeria Casal Rosa
Acervo Família Tess
Em 1949, Rosa e Aracy estiveram em Chamonix, uma estação de esportes de inverno nos Alpes franceses. Depois de anos morando no Brasil, o casal voltou à Europa quando Guimarães Rosa foi convidado para trabalhar na Embaixada do Brasil em Paris. Numa carta ao amigo Pedro Barreto, Rosa fala de seus dias a "contemplar neves, picos de montanhas, florestas de abetos e pinheiros, esquiadores, patinadores e trenós"
No link abaixo, mais fotos
Último Soneto escrito por Machado de Assis

Quando a esposa de Machado de Assis morreu, o escritor, muito triste, escreveu um poema no qual se despede dela. O soneto, intitulado "A Carolina", faz parte do livro "Relíquias de Casa Velha", publicado em 1906, e foi o último escrito por Machado de Assis.
A Carolina
Querida, ao pé do leito derradeiro
Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.
Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs um mundo inteiro.
Trago-te flores, - restos arrancados
Trago-te flores, - restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa separados.
Que eu, se tenho nos olhos malferidos
Que eu, se tenho nos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos.
Mostra Machado de Assis
Museu da Língua Portuguesa prorroga mostra Machado de Assis
O Museu da Língua Portuguesa decidiu prorrogar a permanência de Machado de Assis: mas este capítulo não é sério, em cartaz no primeiro andar – espaço dedicado a mostras temporárias. Aberta ao público no dia 15 de julho. Machado de Assis fica no Museu até o dia 01º de março de 2009.
Museu da Língua Portuguesa
Endereço: Praça da Luz, s/nº,
Centro - São Paulo – SP
Fone: (11) 3326-0775
http://www.saopaulo.sp.gov.br/sis/lenoticia.php?id=99143
O Museu da Língua Portuguesa decidiu prorrogar a permanência de Machado de Assis: mas este capítulo não é sério, em cartaz no primeiro andar – espaço dedicado a mostras temporárias. Aberta ao público no dia 15 de julho. Machado de Assis fica no Museu até o dia 01º de março de 2009.
Museu da Língua Portuguesa
Endereço: Praça da Luz, s/nº,
Centro - São Paulo – SP
Fone: (11) 3326-0775
http://www.saopaulo.sp.gov.br/sis/lenoticia.php?id=99143
Assinar:
Postagens (Atom)